Toda vez que eu sinto a morte de alguém

Da newsletter, replicada aqui. 

Toda vez que eu sinto a morte de alguém, eu me repasso as mesmas perguntas. Como uma prova, um checklist da vida. Toda vez que eu sinto a morte de alguém, pelo motivo que for. Eu me pergunto por que não estou escrevendo os textos que preciso escrever. Por que não estou lendo os meus livros? Por que não estou comendo direito? Por que evito os exames? Por que deixo o meu corpo em tensionamentos de ansiedades e preocupações que já aprendi que não são minhas? Toda vez que eu sinto a morte de alguém, eu me encorajo profundamente a continuar sendo essa mulher que vai atrás do que quer, que é absolutamente comprometida com seus desejos. Ainda mais se sinto a morte de uma mulher que sempre foi assim. Me encorajo a continuar toda vez que eu sinto a morte de alguém que viveu o corpo, que falou o que pensa, que desafiou os misóginos. Não só eles. Mas toda vez que eu sinto a morte de alguém, eu fortaleço a ideia de continuar incomodando os misóginos. Eles estão por toda parte. Não digo somente daqueles declarados, de direita, que vivem de nos cortar liberdade. Os misóginos estão do nosso lado, por toda parte, homens não costumam nos enxergar como gente. Toda vez que eu sinto a morte de uma mulher poderosa, eu fico quinhentas mil vezes mais livre. Livre ao quadrado. Corajosa ao cubo. Toda vez que eu sinto a morte de uma mulher poderosa, eu lembro de me manter comprometida à minha vida, à liberdade, ao trabalho que amo e às amizades. Viver centrada nos desejos, no corpo e nas amizades. Nossos corpos acabam, vão-se embora. Lembrar que o tempo dele vivo é para dar risada com as minhas amigas. Para escrever coisas bonitas. Para fazer trabalhos que tentam movimentar as coisas. Toda vez que eu sinto a morte de alguém, dessa forma que senti agora, eu penso que minhas palavras sempre são a melhor forma de comunicar à força dessa mulher que eu a sinto aqui. Fazer circular a força, toda vez que sinto a morte de alguém.

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